É comum afirmarmos que “fulano não teve infância” – quando algum adulto faz uma brincadeira que consideramos boba ou inadequada. Esse comentário geralmente é reproduzido em tom de humor ou as vezes até de desdém. É como se esse adulto estivesse transgredindo alguma norma e nós prontamente trataríamos de justificar esse ato com uma “falta”- a da infância- na formação de seu caráter. A infância seria então esse período em que a brincadeira, as “bobagens” e as experimentações seriam toleráveis?
A ideia de que um adulto que brinca o faz pelo motivo de não ter “tido infância” desvela uma das concepções mais fortes sobre a infância em nossa sociedade: um período da vida que deve ser superado. A infância seria, então, esse período de alguns poucos anos compreendido entre o nascimento e a vida adulta e caracterizado pelo aprendizado e pela transitoriedade. Ter infância é aprender a ser gente, nessa concepção. A infância, nessa abordagem, seria uma fase da vida inferior às demais etapas. Uma espécie de preparação necessária para que o indivíduo venha a se tornar adulto e aí sim ser dotado de racionalidade, podendo tomar decisões e ser responsável por sua própria vida.
A infância em nossa sociedade é pensada também enquanto um direito. O direito a viver esse período da vida sem ser atravessado por responsabilidades atribuídas aos adultos – como trabalhar, votar, pagar contas e impostos, reproduzir-se e cuidar das crianças – é salvaguardado por leis recentes como A Declaração Universal dos Direitos da Criança, adotada pela Assembleia das Nações Unidas de 20 de novembro de 1959 e ratificada pelo Brasil. A declaração reconhece a imaturidade física e mental das crianças e visa garantir a proteção e desenvolvimento para todas. Segundo o paradigma da lei, a infância é definida como o direito de acesso a um ambiente saudável de desenvolvimento e acolhimento e de não exploração. Mas além de garantir a proteção dos nossos filhos e exigir da sociedade que protejam as crianças órfãs, qual a importância da infância para nossa concepção de mundo. O que pode a infância? Tratemos de entender um pouco mais a fundo a invenção da noção de infância.
A infância é uma construção social da modernidade. Segundo o estudo histórico e iconográfico de Philippe Ariés (1986 2ªed) História Social da Criança e da Família, o sentimento de infância não existia na Idade Média. Antes do século XVII não existia uma separação entre crianças e adultos como concebemos hoje, e a infância passou por um longo trajeto de elaboração até chegar ao que se têm hoje.
É difícil imaginar um mundo em que a mortalidade infantil é tão grande que os bebês quando morrem não causam nem ao menos comoção; ou ainda, um mundo no qual as crianças aos sete anos já trabalham em ofícios como aprendizes e não frequentam as escola, por que não há escola. Nesse mundo as crianças são vestidas como os adultos, frequentam as festas como os adultos. Em suma, não eram crianças, nem poderiam ser porque a própria ideia de criança ainda não existia.
Mas se a modernidade trouxe a noção de infância, trouxe também o cartesianismo, e todas as filosofias racionalistas que vão investigar, disciplinar e moldar a criança desde cedo, para que ela seja um adulto ideal. Descobre-se aí que muitos dos desvios praticados por adultos podem ser atribuídos à uma infância “não saudável”. E o “saudável”, conceito disputadíssimo na modernidade, começa a se multiplicar, aplicando as mais diversas ciências ao mundo das crianças. E aí onde veremos surgir a pedagogia científica, a nutrição infantil, a psicologia infantil, a pediatria e outros tantos campos de saber que vão incindir sobre a forma como protegemos e cuidamos das nossas crianças.
A invenção da infância não consiste apenas no reconhecimento de um período da vida separado dos demais períodos e no qual se exige um cuidado especial. Envolve também o desenvolvimento e a mobilização de um arcabouço teórico investigativo que vai disputar o que é melhor para as crianças e como devemos educá-las. Tudo isso implica, de certa maneira, uma ação sobre o futuro. Na medida em que as crianças de hoje serão os adultos de amanhã, isto é, aqueles que trabalharão e tomarão decisões em nossa sociedade, cuidar da educação das crianças do presente é atentar para um futuro mais próspero e saudável.
São vários os efeitos da invenção da infância nos dias de hoje. O mais imediato é o efeito da invenção da infância sobre as famílias. Para se ter uma ideia basta pensar a forma como organizamos as nossas vidas em torno das atividades dos pequenos. Hoje, cada filho é único e tratado com um amor imenso. Mudamos radicalmente as nossas vidas a partir do seu nascimento! Em muitas famílias, metade do orçamento familiar, ou mais, é comprometido com a educação e bem estar dos pequenos. Nos dias de hoje, a partir do momento em que concebemos um filho a maior parte das nossas preocupações gravitarão em torno do futuro e do desenvolvimento dele. Antes da modernidade e da invenção da infância as coisas não eram bem assim.
Como nos dias de hoje a preocupação com o desenvolvimento e com a saúde das crianças ocupa boa parte das mentes e dos corações de papais e mamães ao redor do mundo, também se construiu um mercado gigantesco, disputando essas mentes e corações. Enquanto diversos campos científicos desenvolvem pesquisas para conceber o ambiente saudável ideal para o desenvolvimento das crianças, partes dessas pesquisas são transformadas em fórmulas, métodos e produtos e vendidos aos pais. A infância torna-se, ao mesmo tempo, motivo de extrema preocupação e consumo.

Mas a modernidade é um campo em disputa. Ao mesmo tempo em que a infância é transformada em mercadoria e disponibilizada no mercado para pais e mães cada vez mais paranoicos, outras concepções sobre a infância também começam a ganhar corpo para disputar esse terreno resvaladio tão fundamental para o desenvolvimento do ser humano. Nesse espírito desejamos trazer para a discussão um outro paradigma sobre a infância, construído ao largo das preocupações mencionadas mais acima. Trata-se do paradigma desenvolvido por John Dewey (1859-1952), filósofo pragmatista norte-americano que dedicou sua vida a escrever e desenvolver uma filosofia da educação. Diferente da concepção da infância como um período a ser superado, Dewey é um dos primeiros pensadores e ver esse período com a sua devida plenitude. Para o autor, a criança gozaria de dois atributos que a constituem como a potência máxima da transformação e do desenvolvimento de uma sociedade. Seriam esses atributos:
1. A dependência como potência do social. Ou seja, a necessidade de cuidado da criança mostra que o ser humano é naturalmente um ser social, que tem necessidade de outros seres humanos e da sociedade para sobreviver e se desenvolver. Nota-se aí que a dependência das crianças, para Dewey, não é vista como uma falta ou deficiência, mas como potência.
2. A plasticidade cerebral. Essa plasticidade, é o poder de aprender a aprender. Para Dewey o aprendizado se dá nas experiências e na resolução de problemas práticos. A plasticidade é o que facilita a transferência do aprendizado de uma experiência para outras. Observe como seu filho aprende determinados papéis e histórias em um desenho animado, por exemplo, e consegue transferir esses aprendizados para outras situações de seu dia a dia com muita facilidade. Com o tempo, desenvolvemos separações categóricas em nossas cabeças que dificultam esse processo de transferência, ou seja, nosso cérebro perde essa plasticidade e com ela a facilidade de aprender a aprender.
Estes dois atributos combinados, dão a criança então, o poder máximo de pensar. Pensar para Dewey é essa capacidade de aprender a aprender, a transferência de uma experiência a outra e a resolução de problemas inseridos no contexto social. A filosofia da educação de Dewey também aponta para a questão da liberdade, intrinsecamente ligada ao poder de pensar. Uma educação para liberdade estaria então voltada para resolução de problemas em sociedade, que preza tanto pelo coletivo quanto pelo respeito à subjetividade e ao livre pensar de cada criança.
A pedagogia tradicional que constrói a educação como transferência de conteúdo, na qual a criança é compelida a absorver e reproduzir o conhecimento como lhe é passado, de geração em geração, é criticada pelo autor. Para Dewey, este tipo de educação não deixa espaço para o poder pensar, não respeita a liberdade e a subjetividade de cada criança e condena nossa sociedade a reproduzir sempre as mesmas ideias, castrando a transformação e inovação que as novas gerações, com uma educação da experiência e do livre pensar, poderiam proporcionar ao mundo em que vivemos.
Convido o leitor e a leitora a contrapor os dois paradigmas discorridos nesse texto para pensar o que é a infância e qual sua verdadeira importância em nossa sociedade. Tratam-se de dois paradigmas oriundos da modernidade e que versam sobre a mesma, desvelando o campo de disputa sobre a própria racionalidade humana.
A primeira concepção – tratada aqui de maneira geral, construída a partir da combinação do estudo de Ariés com uma análise antropológica das relações sociais, jurídicas, cientificas e mercadológicas atuais – nos traz a ideia de uma infância vulnerável, um direito a ser protegido e um período da vida a ser superado. A criança nesse paradigma é alvo de políticas de normalização, na qual se estabelece um ideal externo de desenvolvimento para cada etapa e na qual se buscam os meios de tornar a criança espelho dessa externalidade. A preocupação é que a criança torne-se um adulto de sucesso, fundamentada no receio de que ela se torne um adulto desviante. Ou seja, o objetivo da educação não visa a criança em si, mas o adulto ideal que está sendo moldado. Trata-se de uma concepção idealista sobre a infância, baseada em uma racionalidade exterior a própria criança.
O segundo paradigma, exposto aqui à luz da educação filosófica de John Dewey, tem na criança a potência máxima do poder pensar, e consequentemente da liberdade. A criança é vista com um ser capaz de socializar, experimentar e descobrir, contribuindo para a construção da sociedade na qual ela irá crescer. Não existe neste paradigma uma idealização da criança ou do adulto, mas um foco na experiência, no livre pensar e na sociabilidade. A racionalidade é intrínseca à criança, ou seja, ela tem sua própria forma de racionalidade, que como vimos é extremamente potente.

Pergunto ao leitor, conhecendo ambos paradigmas, que noção de infância desejamos reproduzir com nossas crianças. Não seria um certo narcisismo dos adultos conceber o “sucesso” da infância como algo que depende de nossos esforços em moldar a criança a partir de nossa própria experiência? As experiências, saberes, ciências e crenças da nossa geração moldaram uma sociedade com diversos problemas que terão que ser superados pela geração dos nossos filhos. São problemas ambientais graves, econômicos e sociais, além das dinâmicas extremamente estressantes e desgastantes dos modos de vida e produção urbanos.
A pandemia de Covid-19 é um exemplo grave de problema gerado pelas experiências e transformações da nossa sociedade, que afetam as crianças tanto quanto os adultos. Por mais que nos esforcemos em construir o ambiente ideal para nossos filhos se desenvolverem, problemas de epidemia, escassez de água, poluição do ar, guerras e conflitos globais serão cada vez mais comuns nos próximos anos. Esses são problemas que apenas podem ser resolvidos em sociedade, com novas ideias e soluções. E quando digo sociedade isso inclui as crianças.
Isso significa que uma educação baseada na absorção de conteúdo e no sucesso individual de cada uma de nossas crianças não deixa espaço para que essas crianças comecem a construir o mundo que desejam viver. E não é necessário esperar que cresçam para que lhes seja dado o direito de pensar, opinar e agir sobre os problemas que nos rodeiam. Antes, devemos dar-lhes a oportunidade de exercer a potência da transformação que muitos de nós, talvez, já tenhamos perdido.
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Referência Bibliográfica:
- ARIÉS, Philippe. História Social da Criança e da Família./2ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
- MURARU, Darcísio Natal. A CONCEPÇÃO DE INFÂNCIA EM JOHN DEWEY. In: https://educere.bruc.com.br/arquivo/pdf2015/19609_11048.pdf
- DOS SANTOS, Maria Cristina Ferreira. A noção de experiência em John Dewey, a educação
- progressiva e o currículo de ciências. In: http://www.nutes.ufrj.br/abrapec/viiienpec/resumos/R0214-1.pdf
- WESTBROOK, Robert B. John Dewey / Robert B. Westbrook; Anísio Teixeira, José Eustáquio Romão,
- Verone Lane Rodrigues (org.). – Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010. 136 p.: il. – (Coleção Educadores)


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