“Esses são tempos difíceis para um cientista” – desabafou comigo um grande amigo que, entre mil outras coisas, também é um excelente neurocientista1. Não imaginem vocês que meu amigo apenas se queixava da dificuldade de se obter financiamento para as atividades de pesquisa básica. Ele trabalha num ramo da neurociência que fica exatamente na interface entre a ciência e o mercado – o neuromarketing. Como vocês podem imaginar, para ele financiamento não é um problema.
O que incomodava e incomoda o meu amigo é o fato de vivermos, segundo ele, num universo altamente permeado pelo desenvolvimento científico, no qual as pessoas se desfazem da ciência e dos cientistas como se fossem algo de menor importância. Embora as pessoas não se recusem a tomar um avião e confiem que, apenas ao custo de um click, poderão acender as luzes ou acessar as mais diversas distâncias, não faltam, dentre essas mesmas pessoas, aqueles que desconfiam do avanço científico e reduzem a ciência a uma opinião mais ou menos qualificada. Como costumo manter no meu dia a dia uma postura um tanto quanto cética (para me proteger das fake news) perguntei ao meu amigo, com alguma ironia, se deveríamos então, conforme o que ele estava dizendo, confiar cegamente na opinião da ciência. Ele retorquiu dizendo que em ciência não se trata de opinião, embora a confiança tenha algum valor e um certo lugar.
Percebendo que a conversa tomava rumos tortuosos e já começava a parecer chata e pedante, fui direto ao ponto: Mas, Roberto, o que é ciência afinal?
Por acreditar que a resposta do meu amigo trouxe consigo valiosas contribuições sobre a maneira como enfrentamos os problemas no nosso dia a dia – da educação dos nossos filhos ao nosso próprio comportamento – contando com a aprovação do meu querido amigo Roberto Roscheschini, tomei a licença de transcrever nas linhas abaixo o que ele me escreveu a respeito da ciência e da opinião. Prezada Camile, Conhecendo o seu trabalho, tanto na área da antropologia quanto os seus recentes investimentos no campo da criança e da infância, recebo como genuíno os seus questionamentos acerca da ciência e da sua relação com a opinião. É curioso mesmo o momento que estamos vivendo. Afinal, opinião hoje em dia é o que não falta, e se a ciência não é muito diferente da opinião consequentemente cada um deve possuir a sua própria ciência. Nesse movimento o Brasil deveria ser o país com o maior número de cientistas do mundo.
Gracejos de lado, as questões são realmente complicadas. Nenhum cientista sério jamais virá a público para defender que ele possui enquanto sábio as chaves do bom, do belo e do verdadeiro. Na modernidade em que vivemos ninguém pode ter a pretensão de ser um campeão de convicções e possuir a pedra filosofal que resolve todos os enigmas. Vivemos em um universo fragmentado no qual as verdades de um campo científico não são as mesmas para um campo diverso. Muitas vezes os ramos de uma mesma ciência divergem entre si sobre postulados elementares como atestam as discussões no campo da microfísica e da mecânica quântica.
A impressão a que se chega é a de que temos muitos cientistas e justamente por isso nenhuma ciência. Cada um teria o seu paradigma que a custo de dinheiro, inventividade, capacidade lógica e outros atributos seriam universalizados, numa guerra sem fim com outros paradigmas. Nesse universo, a ciência seria como um grande almoço de família no qual se discutem temas, das mais variadas maneiras, cujo resultado final é invariavelmente o mesmo. A constatação de que cada um possui o seu ponto de vista, sua opinião, sua verdade. A única diferença seria portanto aquela que nos diz que os brinquedinhos da ciência são muito mais caros do que a prataria de domingo da sua avó.
Essa é uma imagem bastante triste da ciência, por suposto. Podemos oferecer outra? Com efeito, acredito que sim. Nesse caso, a Ciência (com C maiúsculo) seria menos o resultado dos trabalhos científicos propriamente ditos, que na sua pluralidade refletem dissensos e dissonâncias, e muito mais a maneira de operar dos cientistas que na sua exuberante diferença e diversidade exibem e refletem um profundo consenso de base. Olhemos menos para o que fez o cientista (o livro, o artigo, a pesquisa pronta) e mais para aquilo que ele faz no seu dia a dia (o processo de investigação). Com isso veremos que a distância entre a opinião e a ciência é realmente enorme ao mesmo tempo em que perceberemos que, enquanto investigador, todo mundo pode sim se comportar como um verdadeiro cientista.
São muitos os tratados que falam da ciência a partir do modus operandi do cientista, isto é da lógica da pesquisa científica. Tanto o pessoal do Círculo de Viena quanto os franceses da epistemologia histórica podem te fornecer um bom panorama, dê uma olhada. O fundamental para o que estamos dizendo aqui recai no fato de que o cientista é um profissional da arte de investigar. Ele investiga, portanto. Ele não opina ou emite uma opinião.
Para investigar ele precisa de bons instrumentos. O cientista é também um inventor, um engenheiro. Ele produz instrumentos de medição ao mesmo tempo em que cria parâmetros de medida. Além disso, ele está sempre em contato com a literatura científica e conhece aquilo que poderíamos chamar de comportamento esperado dos fenômenos. Isto é, ele conhece as leis que regulam o comportamento dos corpos e objetos científicos e, mais do que isso, submete essas leis a testes criteriosos que lhe permitirão confirmar, refutar, alterar a lei ou ainda estabelecer novas conjecturas.
O cientista conjuga, enquanto pratica ciência, o melhor de dois mundos. Ele concilia o melhor da teoria com o refinamento dos métodos experimentais. Ele estabelece leis que serão doravante escrutinadas pelo controle rigoroso de outros cientistas, os seus pares. Através desse processo ampliamos nosso conhecimento do mundo e podemos inclusive desenvolver maneiras muito mais eficientes de viver e lidar com a natureza. Nada disso tem haveres com a opinião.
Voltando à questão da modernidade na sua relação com o conhecimento objetivo devemos agora fazer uma importante distinção. Embora seja verdade que na modernidade reine um certo politeísmo de valores, ainda assim acredito que seja perfeitamente possível defender a ciência de um relativismo exacerbado.
É verdade que a ciência nasce e se consolida no intervalo proporcionado pelo recuo da metafísica. Tanto o método experimental quanto o racionalismo moderno só foram tornados possíveis a partir do enfraquecimento da metafísica medieval e a sua pretensão de situar todas as verdades numa realidade transcendente – que a tudo e a todos nos escapa. Não seria lógico esperar que a ciência restaurasse por conta própria essa noção de realidade que durante séculos ela tanto criticou.
É por essas e outras razões que a ciência não unifica o mundo. Muito pelo contrário, ela nos habilita a habitar esse mundo fragmentado e muitas vezes caótico de uma maneira bastante digna. E nisso, mais uma vez ela é distinta da opinião. Enquanto a opinião – essa mesma que cada um possui a sua – nos orienta a dar palpites a partir de informações confusas, a ciência nos incita a investigar cada uma das situações que nos interessa. A opinião nos deixa a mercê dos acontecimentos e das “correntes de informação”, a ciência nos transforma em investigadores capazes de determinar em cada situação qual é a conveniência ou a inconveniência dos que nos cerca. Na opinião estamos sujeitos aos encontros fortuitos que o mundo nos reserva de maneira aleatória; na ciência nós somos causas ativas dos nossos próprios encontros.
Para concluir pensei em te contar algumas coisinhas sobre os meus estudos em química – em especial a teoria da fermentação – a partir de alguns experimentos com pães, bolos e cervejas. Mas como este e-mail já está longo demais concluo com um pequeno elogio do seu trabalho. Estou acompanhando de perto o que você anda fazendo na Um Balalum. E clamo para que você consiga ir sempre adiante nesse esforço de fazer de cada pai e cada mãe um investigador, um cientista do desenvolvimento do seu próprio filho. Beijos e abraços,R.R.
1 Este é um texto inteiramente ficcional, exceto pelo seu conteúdo.


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