Durante anos fomos ensinados a olhar para as crianças e até mesmo para os bebês como se fossem uma espécie de “mini-adulto”, ou, quando muito, como um adulto em formação. O universo da infância, hoje povoado de cuidados, referências, produtos e narrativas é recente. Antes da era moderna não falávamos em infância em sentido próprio, exceto de modo pejorativo, derivado do latim (in)fan, aquele que não fala, a infância era marcada pela ausência de uma competência e não como um período da vida.
Não foram poucos os avanços da era moderna. Do Estatuto da Criança e do Adolescente à pediatria, passando por uma série de regimes simbólicos voltados especificamente ao universo infantil, passamos a proteger e olhar bem mais de perto para essa fase da vida, dedicando atenção e cuidados inauditos. Nesse período, a ciência também avançou bastante, passando a adotar uma postura mais detalhista e portanto menos generalista.
Dito isto e passando diretamente ao que nos interessa neste artigo, graças aos avanços científicos e graças a mudança do nosso enfoque hoje nós olhamos para os bebês e para os seus processos fisiológicos na especificidade que os caracterizam. Falando diretamente, hoje sabemos e afirmamos que os cuidados do bebê são diferentes dos cuidados relativos às crianças, aos adolescentes e adultos. A pele do seu bebê, por exemplo, não é igual a sua. Não apenas em termo de maturidade, mas inclusive em termos de composição da derme, epiderme e extrato córneo. Essa diferença demanda cuidados específicos e para tornar as coisas mais claras vamos pontuar aqui 3 cuidados essenciais que devemos observar no trato da pele dos nossos bebês. Para tanto, o blog da Um Balalum traz para você o melhor da literatura científica.
Segundo revisão literária publicada por Fernandes, Oliveira e Machado nos Anais Brasileiros de Dermatologia (2011;86(1):102-10): “A pele do neonato sofre um progressivo processo de adaptação ao ambiente extrauterino, o que exige cuidados especiais. Seu conteúdo lipídico é menor, mas o de água é elevado. É uma pele macia, uma vez que a camada córnea tem menor espessura, e a epiderme e a derme são mais delgadas do que as dos adultos. A imaturidade da sua barreira epidérmica provoca maior facilidade de ressecamento, diminui sensivelmente a defesa contra a excessiva proliferação microbiana e a torna mais susceptível ao trauma e à toxicidade, por absorção percutânea de drogas”.
As autoras ainda pontuam mais algumas diferenças em relação à pele dos adultos que são dignas de atenção: além de ser mais sensível, fina e frágil que a pele dos adultos, levando até 12 meses para atingir a maturidade em termos de barreira cutânea, a pele dos recém-nascidos apresenta um pH mais neutro, em relação à pele dos adultos. Vale lembrar que o pH ácido presente na pele de adultos saudáveis (pH menor que 5) funciona como uma barreira antimicrobiana, o que, portanto, encontra-se ausente em bebês recém nascidos.
Tudo isso bem observado culmina na necessidade de adotarmos certas precauções orientadas no sentido de levar em conta a especificidade da pele dos bebês. Felizmente, não só o avanço da ciência como também a sua disseminação através de múltiplos canais – das revistas aos blogs, passando pelas redes sociais – têm ajudado a dirimir certos prejuízos causados pela adesão aos mitos e crendices disseminados ao longo da tradição. Práticas como uso de pó de café em queimaduras e pastas de dente para fins diversos têm caído em desuso em função do advento e do acesso ao conhecimento e a uma ampla gama de produtos especializados para a pele não apenas do neonato. Mas nem por isso devemos diminuir a vigilância. Por exemplo, muitos produtos que são apresentados ao público como voltados aos bebês e recém-nascidos devem ser administrados com cuidado e cautela. Devemos sempre estar atentos nesse mundo consumista ao mantra de que muitas vezes “menos é mais”. Ou, nas palavras das autoras de Prevenção e Cuidados com a Pele da Criança e do Recém-nascido (Fernandes, Oliveira e Machado, 2011): “Muitos produtos direcionados ao uso infantil têm substâncias potencialmente tóxicas e prejudiciais à pele dos RNs. Nem mesmo rótulos contendo frases como “dermatologicamente testado” ou “pH balanceado” ou “ingredientes naturais ou orgânicos” garantem a segurança dos ingredientes do produto”.

Devemos, sobretudo, prestar muita atenção aos rótulos e evitar produtos que contenham substâncias potencialmente tóxicas. Partindo do princípio de que não aplicaremos nenhuma substância na pele dos nossos bebês sem recomendação médica, o risco de exposição à toxidade diminui significativamente permitindo que orientemos nossa atenção aos cuidados do dia a dia. Uma vez que não aplicaremos medicação por conta própria nosso olhar deverá se voltar ao uso de xampus, sabonetes e emolientes, presentes nos cuidados cotidianos com o bebê.
Para facilitar a sua vida vamos listar aqui algumas substâncias que devem ser evitadas no cuidado diário com recém-nascidos: substâncias iodadas (podem causar hipotireoidismo por sobrecarga de iodo); propilenoglicol (presente em muitos emolientes, se administrado em concentrações maiores do que 5% podem causar irritação cutânea); Sodiumlauryl sulfate (SLES) e Ammonium lauryl sulfate (são agentes que formam a espuma de produtos como pastas de dente, gel de banho, espuma para banheiras e que além de provocar irritações cutâneas podem danificar proteínas e causar úlceras orais).
Os perigos são grandes e nesse universo de indução ao consumo pode parecer difícil proteger nossos filhos e sua pele frágil da intrusão de componentes tóxicos. Mas lembre-se, adotando a postura do menos é mais quando se trata de xampus, sabonetes e emolientes dificilmente você vai errar se permanecer atenta(o) ao rótulo dos produtos. Para finalizar e facilitar ainda mais a sua vida vamos listar aqui 3 cuidados elementares que se bem observados ajudarão a garantir a segurança e a saúde da pele do seu bebê:
Cuidado número 1: Banhos Mesmo nesse quesito menos é mais. Embora tenhamos o costume de abusar dos banhos tanto em virtude do nosso clima quanto em virtude da nossa tradição, não é recomendado dar banhos longos e diários em bebês que ainda não engatinham. Dermatologistas afirmam que duas a três vezes por semana é o ideal. A duração do banho não deve superar os 5 minutos, sobretudo se forem utilizados agentes de limpeza além da própria água, o que só deve ser feito após a queda do cordão umbilical. Não é recomendada a utilização de esponjas para esfregar pois além de promover maior perda de temperatura, promove maior perda de água e menor hidratação do estrato córneo. A temperatura da água deve ser próxima a temperatura corporal, variando entre 34,5 a 37,5. Como os sabonetes apresentam um pH mais alcalino, eles interferem diretamente na camada lipídica da pele do bebê, além de serem potencialmente irritantes. Caso haja disponibilidade, opte pelos syndets ou detergentes sintéticos que não apresentam os mesmos inconvenientes. Xampus devem ser evitados. Lembre-se sempre de controlar o uso, ainda que você utilize o melhor dos sabonetes. Caso a pele do bebê apresente ressecamento após o banho utilize emolientes que não contenham propilenoglicol. Uma excelente pedida é o óleo de girassol que além de barato têm se mostrado relevante na recuperação da barreira cutânea.
Cuidado número 2: Roupas Nesse quesito nem sempre menos é mais. Sobretudo quando chega o inverno. Mas aqui o risco de errar é muito menor e os cuidados são mais simples. Como a pele do bebê ainda está em processo de maturação, os processos de termorregulação dos recém-nascidos ainda não estão completamente desenvolvidos. Isso implica no fato de que as oscilações de temperatura do bebê são mais bruscas do que aquelas observadas em adultos. Tanto por aquecimento mediante esforço quanto por exposições ao ambiente. Além disso não é incomum bebês apresentarem uma maior transpiração, principalmente quando estão em sono profundo. Para evitar que a pele do bebê sofra com irritações causadas pelo suor, dê preferência às roupas confeccionadas em tecido de algodão. Fique atenta também a temperatura ambiente, não agasalhe em demasia e caso seja necessário utilizar materiais mais quentes com poliéster na composição, como são os macacões de plush ou de soft, não deixe de utilizar uma peça de algodão por baixo como um body mais levinho ou mesmo uma camisetinha 100% algodão.

Cuidado número 3: Cuidados do dia a dia Uma das primeiras atenções dedicadas ao recém-nascido se refere aos cuidados com o cordão umbilical. A literatura médica recomenda que “a limpeza regular do cordão umbilical com clorexdine, nos primeiros dez dias de vida, até o cordão cair, pode reduzir bastante o risco de infecção do mesmo e também o risco de morte neonatal(Fernandes, Oliveira e Machado, 2011)”. Nunca é demais lembrar também que as unhas devém ser mantidas curtas e aparadas evitando que o bebê se machuque causando cortes e lacerações na pele. Quanto às fraldas, recomenda-se àquelas superabsorventes pois mantém a pele seca por mais tempo. Para a limpeza da urina, água morna e algodão são as melhores pedidas. Já para as fezes recomenda-se o uso de sabonete brando ou o uso dos sydets (detergentes sintéticos com pH ligeiramente ácido). Tome cuidado com pomadas ou preparações tópicas destinadas a prevenir dermatite na região coberta pela fralda. Além de ser desnecessário em bebês saudáveis, alguns “ aditivos dessas preparações têm o potencial de causar sensibilização de contato, irritação e/ou toxicidade percutânea (Ibid)”. Evite ao máximo utilizar curativos adesivos na pele do bebê, além de causar irritação pode causar laceração quando da sua retirada. *** Cuidar de um bebê é de fato uma das tarefas mais desafiadoras da espécie humana. Não apenas a saúde dos nossos filhos está em jogo nesse processo, mas também o futuro de toda a humanidade. Se os desafios são enormes, muitas vezes a desinformação chega primeiro. São modismos e sugestões de consumo que vêm para nublar o raciocínio de pais e responsáveis na hora de garantir o melhor para o seus filhos.
Nós do Blog da Um Balalum temos o compromisso de trazer para você o melhor da literatura científica, de maneira direta, mas sem simplificação desnecessária. Acreditamos que o conhecimento e a informação acessível e de qualidade constituem o nosso verdadeiro passaporte para o futuro. Venha você também fazer parte do nosso balão. Traga suas críticas e sugestões. Sua dúvida de hoje pode ser o tema da nossa próxima coluna. Até lá!
Referências: Fernandes JD, Machado MCR, Oliveira ZNP. Prevenção e cuidados da pele da criança e do recém nascido. An Bras Dermatol. 2011;86(1):102-10.


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