Amor e Diferença

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A noção de diferença chegou para ficar. Viver a diferença, amar e afirmar a diferença. A ideia de diferença deixou de ser um mero conceito extraído da filosofia francesa contemporânea e passou a habitar as mentes e os corações de todos aqueles que se comprometem com um mundo melhor. Mas afinal de contas, o que é a diferença?


Não pretendemos aqui fazer um tratado sobre o conceito de diferença. Muito antes, como o próprio título já indica, nosso objetivo é pensar o amor na sua relação com a diferença. Como é do conhecimento do leitor que frequenta as nossas colunas, esse é um espaço de reflexão inteiramente dedicado à primeira infância. Portanto, além de relacionar amor e diferença procuraremos tematizar como esses dois conceitos são fundamentais quando o assunto é a criação, educação e formação dos nossos filhos.


Nos dias de hoje, quem nunca ouviu a expressão: “devemos respeitar as diferenças”? Como uma espécie de dogma do politicamente correto, respeitar as diferenças foi transformado no décimo primeiro mandamento. Depois de “amar Deus sobre todas as coisas” devemos respeitar as diferenças. O furor é tamanho que fizeram até novela para celebrar a tal da diferença!

Mas afinal, o que é isso “a diferença”? Num primeiro olhar tendemos a olhar a diferença a partir do que nos é familiar. Portanto, nosso primeiro conceito de diferença, ou melhor, nosso (pré)conceito de diferença será “o desigual”. Como partimos do familiar, diferente será tudo aquilo que frustra as nossas expectativas. Tudo aquilo que não se enquadra nos nossos padrões e antecipações de comportamento esperado. Mas, como em todo (pré)conceito, estamos ainda na esfera do negativo, na definição da coisa por aquilo que ela não é.


Muitas vezes, a noção de respeitar as diferenças – e não apenas ela, mas também o próprio respeito às diferenças – parte desse tipo de (pré)conceito. Nesse registro, por não compreendermos a diferença, adotamos uma relação estranha com o diferente. Mesmo que não o condenemos por ser desigual em relação às nossas expectativas, o nosso respeito para com o diferente tem um “quê” de temor e distanciamento. O diferente, mesmo quando respeitado “na sua diferença”, é observado como um estranho, como alguém que não cumpre com aquilo que se espera. Por ser comparado a um modelo – que diz muito mais sobre nós mesmos do que sobre o outro – o “diferente” é dito diferente.


Avançando na diferença chegamos a um conceito um pouco mais “positivo”. Devemos entender que positivo aqui não significa feliz ou virtuoso. Positivo se refere àquilo que afirma, que expressa alguma coisa. Nesse registro a diferença não é mais tomada negativamente, isto é em relação ao que lhe falta se contraposto aos nossos parâmetros, modelos e anseios. É tomada em si mesmo naquilo que possui de singular. Diferença significará então singularidade.


Diante de seres singulares, nossa relação com a diferença, ou melhor nosso respeito às diferenças também muda de registro. Aqui deixamos de evitá-la, seja por temor ou por reprovação e passamos a admirá-la. Não devemos confundir amor e admiração. A admiração comporta muitas facetas. Podemos nos admirar de uma obra de arte, na sua beleza e esplendor, como podemos nos admirar de um comportamento reprovável e vexaminoso. Admirados pela diferença, ainda em que em sua “singularidade”, permanecemos no terreno das paixões.

Enquanto seres apaixonados, a diferença ao passo que nos une (pela admiração) também nos separa. Podemos nos apaixonar como também podemos nutrir verdadeira aversão a essa singularidade diferente que nos defronta. Estamos no terreno das diferenças discretas. Pequenas ilhas de singularidades, unidas e separadas ao sabor das paixões. É assim que “caímos de encanto” por aquela pessoa naquilo que ela possui de mais estranho, de mais singular. É assim que nos enamoramos pelos aspectos mais particulares das nossas paixões. Mas é assim também que passamos a odiar aquilo que outrora caíamos de amores, muitas vezes dizendo “como pude me deixar seduzir por isso ou aquilo”. Em suma, é assim que quem ama o feio, bonito lhe parece – até que deixamos de amar e então a feiura resplandece em sua máxima intensidade.


Mas ainda não estamos no amor. Esse primeiro conceito positivo da diferença aponta para algumas de suas propriedades (no caso, a singularidade) mas ainda não nos coloca na presença da própria diferença. Em todo caso, quando estamos tratando das diferenças discretas, dessas pequenas ilhas de singularidade, ainda estamos referindo a diferença a uma coisa que ela não é. Estamos referindo a diferença à nós mesmos enquanto aqueles que se relacionam com essa singularidade e descrição. É por isso que essa faceta da diferença cabe tão bem aos seres apaixonados. E é à nossa paixão e à nossa admiração que essa diferença se refere. Somo nós que encantados de alguma forma percebemos características singulares àqueles a quem amamos ou odiamos.

Contudo, da mesma forma que nesse registro ainda não estamos na presença da diferença, ainda não sabemos nada sobre o amor. Esse amor, cujo oposto é o ódio, não passa de uma admiração intensa, facilmente reversível ao seu contrário, caso mudem as circunstâncias. Não obstante, ao passo que não define a diferença, essa admirável diferença nos coloca no caminho de descobrir uma verdadeira relação com a diferença. Uma relação que supera o respeito e nos coloca no seio do mais absoluto amor.


Mas se a diferença não é a desigualdade, nem a singularidade, como defini-la sem que com isso acabemos por reduzi-la àquilo que ela não é. Como conceber a diferença para além de nós mesmos e da nossa relação com a diferença? E mais, como conceber essa ideia de uma diferença que nos ultrapassa e que justamente por isso nos coloca em face do mais verdadeiro amor? Basta compreendermos que a diferença não é uma peculiaridade ou uma característica de um determinado tipo de ser. Muito antes, a diferença é um tipo de movimento que enquanto tal não diz respeito a este ou àquele, mas é predicado da própria natureza.


Dizer que a diferença é um tipo de movimento e um predicado da natureza ainda é uma maneira muito aproximativa de dizer a diferença. Afinal de contas a natureza não é uma substância entendida como um sujeito de muitos predicados. Muito antes, a natureza é o próprio movimento da diferença. É nesse sentido que os antigos diziam que a diferença é o que vai diferindo. Nesse registro, a diferença é o incessante devir de todas as coisas enquanto produção continuada do real. De posse desse conceito podemos conceber a realidade não como um produto feito e acabado, mas como um eterno movimento da diferença que vai diferindo e transformando todas as coisas.


Nesse sentido, respeitar às diferenças cede lugar a afirmação da diferença. Conviver com isso não consiste em temer ou se admirar da diferença, mas muito antes em compreender o vir a ser de todas as coisas e, portanto, de nós mesmos como uma constante diferenciação. Com isso, somente a diferença pode ser o único objeto legítimo de amor. Isto é, desse amor que se coloca para além das paixões, desse amor incondicional, do qual nos fala Santo Agostinho. Tudo isso porque quando estamos na presença da verdadeira diferença, não aprendemos a amar essa ou aquela qualidade cambiante, mas antes, aprendemos a amar o produção inesgotável do real enquanto movimento de diferenciação.


Eu sei que tudo isso parece um pouco abstrato, ou poético demais, mas ousaria dizer que nada é mais concreto do que esse amor à diferença. Para que fique claro recorrerei muito brevemente, na qualidade de conclusão desse pequeno texto, a maneira como todos esses conceito e (pré)conceitos de diferença estão relacionados entre si, sobretudo quando se trata de uma atividade que envolve o amor incondicional – isto é, o amor aos nossos filhos.


Da mesma forma que o primeiro conceito de diferença recai sobre a imagem do desigual, a nossa relação mais imediata com nossos filhos recai sob a ótica da projeção. Quem nunca se viu projetando anseios, projetos ou frustrações sobre as costas dos nossos filhos. É o caso típico do pai e da mãe que deseja o melhor para o seu filho – sendo esse melhor, via de regra, aquilo que mais agrada determinado pai, ou determinada mãe. Não tem nada de errado querer que o filho seja um jogador famoso, ou que a filha seja uma repórter de sucesso. Desde que saibamos que esses são os nossos desejos e projeções e não necessariamente aquilo que constitui a única possibilidade de vida feliz para os nossos filhos.


Se ficarmos presos nessas projeções lidaremos muito mal com a diferença e muito provavelmente com os nossos filhos. Medindo-os por aquilo que eles não são, trataremos nossas crianças como desiguais em relação aos nossos propósitos. E aqui, das duas uma: ou nos frustraremos diante da diferença imposta pelos desejos e volições dos nossos filhos, ou tentaremos a todo custo (e não é baixo) impor os nossos desejos e projeções no vir a ser da vida de uma criança e adolescente. Em todo caso, o resultado não poderá ser pior.


Ou poderá. Se no primeiro registro da diferença a projeção e a desigualdade imperam, no segundo registro, isto é no da singularidade, não estamos completamente livres de uma reação apaixonada que nos priva do melhor. Ou amamos a singularidade dos nossos filhos e nos enchemos de soberba enquanto mimamos a nossa cria, ou deploraremos a sua diferença e nos lamentaremos de não sermos contemplados com a sorte dos outros papais e mamães orgulhosos. Ou aceitamos a diferença com orgulho, ou lamentaremos a diferença com tristeza e ressentimento. Nesses dois registros, embora seja possível “querer o melhor para os nossos filhos” é impossível amá-los em face da diferença. Por mais paradoxal que pareça é completamente possível que aqueles pais que são loucos pelos seus filhos, na exata medida da sua loucura, sejam completamente incapazes de amá-los. Amar os nossos filhos não consiste apenas em querer “o melhor” para as crianças, nem muito menos em se “orgulhar do filho que tem”. Amar uma criança significa compreendê-la enquanto um constante movimento de diferenciação, de devir. A criança não é, ela devém, ela se torna e nunca para de se tornar – exceto quando morre. É nesse sentido que dizemos que as pessoas tornam-se amargas e velhas, não quando o tempo delas chega, mas quando perdem a criança interior. Essa criança interior não é outra coisa senão a própria diferença e a capacidade de diferir.

Dizer que uma criança devém, que ela é um constante movimento de diferenciação é reconhecer a importância do amor. Longe de endossar uma abordagem permissiva por parte dos pais, o reconhecimento da diferenciação constante é exatamente aquilo que obriga pais amorosos a se empenhar na educação de seus filhos. Contudo, longe dessa educação ser concebida como uma escada para que nossos filhos subam e ascendam aos lugares onde nós gostaríamos de estar – em mais uma imagem das nossas projeções – essa educação pelo amor e pela diferença se transforma em educação para a liberdade. Trate-se então de uma educação voltada para que nossos filhos possam experimentar esse movimento de diferenciação como algo natural, livre de temores e ansiedades. Com isso, poderemos estabelecer não apenas uma maior relação de confiança e confidencialidade para com os nossos filhos, como também granjearemos as condições de possibilidade para que nos façamos presentes todas as vezes em que esse movimento inevitável de diferenciação acarretar riscos e perigos para um devir saudável.


Compreendendo que nossos filhos estão em constante processo de diferenciação poderemos orientá-los e apoiá-los para que essa diferenciação seja sempre um movimento alegre em direção a realização da essência singular dos nossos filhos. Em suma, a partir do amor e da diferença poderemos trabalhar a educação de nossos filhos para conduzi-los pela mão em direção a uma vida feliz.


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