O uso das telinhas pelas crianças é sempre motivo de preocupação para os pais, avós e responsáveis. Com a quarentena então – e consequentemente com as crianças em casa o dia todo – o assunto não podia ser mais urgente! Eu sei que você, assim como eu, muitas vezes enxerga a telinha do tablet ou do celular como um respiro. É preciso cozinhar com calma? Toma filho assiste o desenho. É preciso tomar banho? Toma filho joga o joguinho. Mas quando vemos, o filhote tá la todo estressado, entediado e brigando pelo celular ou com o celular. Então mamãe e papai (e por que não, vovô e vovó?) é hora de rever essa prática!

A preocupação sobre o uso da internet pelas crianças não incide apenas sobre a quantidade de tempo no qual os pequenos permanecem na frente das telas. Mas se refere também ao tipo de uso que é feito, em quais dispositivos e com qual conteúdo.
Falar de crianças significa também dizer que são várias as fases da infância – dos bebês aos adolescentes. Vale lembrar que cada fase demanda cuidados específicos no uso do mundo digital. Contudo, todos esses cuidados específicos estão contidos numa noção mais geral e que se refere ao modo como os pais e responsáveis devém fazer-se atentos para que a relação das crianças com o mundo digital seja proveitosa para elas e para toda a família. Embora o foco da discussão gravite, no texto de hoje, em torno de pais e mães, sem qualquer forma de prejuízo, essa discussão pode ser estendida para todos aqueles que, profissionalmente ou afetivamente, se encarregam de cuidar das crianças.
Nós, mães e pais recentes, fazemos parte de uma geração peculiar. Nós somos aqueles que nasceram em um mundo sem internet – ou com internet limitada – e morreremos em um mundo completamente digitalizado. Quando crianças nós não estávamos “pendurados” em tablets. Não tínhamos as nossas fotos expostas na rede, nem nos comunicávamos com os nossos avós por webcam. Longe de qualquer nostalgia romântica, vale dizer que na diferença entre o mundo em que nascemos e o mundo no qual vivemos não cabe nenhum juízo de valor. Não se trata de afirmar que um seja melhor do que o outro. A internet, ou a falta dela, não prejudica necessariamente o desenvolvimento de ninguém.
Sem dúvidas, o desenvolvimento das redes carreia e desdobra possibilidades inauditas, mas, por isso mesmo precisa ser bem utilizada. Mas, que fique claro que nós não somos mais ou menos desenvolvidos por termos crescido em um mundo analógico (contrário de digital); nem que nossos filhos são mais ou menos desenvolvidos por manusear com desenvoltura aqueles dispositivos que temos alguma dificuldade em lidar.
Para muitos adultos o mundo digital pode ser algo novo e até mesmo difícil de aprender. Não é incomum que nos surpreendamos com a facilidade com que nossos filhos pequenos dominam o uso dos aparelhos digitais, a navegação nas redes e sua funcionalidade. São por esses e outros motivos que, às vezes, nos julgamos impotentes perante o uso ou exposição exagerada de nossos filhos ao mundo virtual. Todavia, gostemos ou não da internet, saibamos do seu potencial ou não, nós somos os adultos e temos a responsabilidade de decidir os usos e os limites que nossos filhos fazem das redes de computadores. Portanto, além de ser o lugar de um exercício saudável da relação pais e filhos, as questões sobre o uso da internet podem vigorar também como a ocasião para um aprendizado mútuo. Trata-se de uma via de mão dupla. Bem utilizada podemos aprender sobre as potencialidades das redes ao passo que instruímos nossos filhos sobre as alegrias e vicissitudes das relações sociais e das interações com o mundo e com as coisas, mediadas pelas telinhas ou não.
Assim, esse texto visa estender a importância dos pais e mães como mediadores e protetores das crianças ao mundo digital. Essa importância, evidentemente, começa fora do mundo digital, mais especificamente na orientação que os pais oferecem aos seus filhos de como lidar com as experiências em geral.
Nós como adultos, ao longo da nossa formação e desenvolvimento, vamos aos poucos constituindo uma espécie de filtro em relação às experiências externas. Esse filtro nos protege diante dessas experiências para que elas não nos afetem de maneira negativa. Cabe a nós, portanto, ensinar aos nossos filhos como constituir esse filtro. Isto é, como se proteger, comedir ou lidar com as experiências que os atravessam dentro e fora do mundo digital.
Na falta desses filtros – que só terminam de se formar ao custo de um longo aprendizado – nós devemos valer por eles. Da mesma maneira que não permitimos que determinados livros, filmes ou imagens sejam acessados pelas crianças, devemos também filtrar o que chega até os nossos filhos através da internet. Mesmo nesses casos, isto é, jogando o papel de filtro, ainda assim não podemos evitar por completo que imagens ou assuntos indesejados cheguem até os nossos pequenos. Nesses casos, como em todos que se sejam a ele assemelhados, a melhor ferramenta é sempre o diálogo. Evite ao máximo adotar uma postura meramente repressiva, caso você deseje ser avisado pelo seu filho quando do recebimento de outros conteúdos indesejáveis. Mesmo a proibição deve vir acompanhado de motivos e explicações.
O mundo digital nesse sentido é como uma praça. Da mesma maneira que não deixamos nossos filhos brincando sozinhos na pracinha também não devemos deixá-los sozinhos no mundo digital. O uso da internet pelas crianças deve sempre estar mediado por um adulto responsável.

Lembrando que tudo isso vale apenas para os pequenos que já possuem pelo menos dois anos. As crianças têm uma plasticidade enorme no cérebro e estão mais aptas ao desenvolvimento e ao aprendizado. Justamente por isso, elas se afetam com as coisas de uma maneira muito mais marcante. Nesse sentido não é recomendado que crianças com menos de dois anos fiquem expostas a qualquer tipo de telas, incluindo os desenhos animados.
Aquela imagem da criança quietinha diante da tela – com todo apelo que possui para pais e mães cada vez mais cansados e atarefados pela correria do dia a dia – deve ser olhada com bastante cautela. Por mais tentador que seja deixar seu filho quietinho assistindo desenhos ou jogando no computador, tome cuidado pois isso pode prejudicar o desenvolvimento da criança. O mundo digital como um todo, isto é os aparelhos, as redes e seus conteúdos foram pensados e projetados nos moldes da sociedade de consumo. Em poucas palavras, foram projetados para o consumo. Os desenhos animados possuem um design, um conjunto de sons e cores que interagem com a percepção das crianças de modo a produzir uma uma relação de insaciedade constante. Quanto mais se assiste, mais se deseja assistir, o que é ainda mais evidente no caso dos vídeo games. O nome disso é vício. Além disso a exposição demasiada causa cansaço e stress, prejudica o sono e faz mal para os olhos.
Quem nunca passou o dia assistindo uma série estimulante e quando foi se deitar não conseguia dormir, por mais cansado que estivesse? Pois é, para as crianças pequenas isso pode ser ainda pior por serem mais sensíveis a toda sorte de estimulo.
Pode ser que você veja uma criança de dois anos já usando o celular com agilidade e diga: “quanto aprendizado e desenvolvimento!”. Mas esse tipo de desenvolvimento motor ocasionado pela utilização do celular e de outros dispositivos não compensa os prejuízos trazidos pelo uso precoce das telas, como a dificuldade de atenção e capacidade de concentração em cenários e ambientes dotados de estímulos menos intensos.
Para as crianças maiores os cuidados são outros e as opções são abundantes. Em meio a milhares de jogos e desenhos animados é preciso sempre saber distinguir. O critério deve ser sempre aquele que permite separar o bom do ruim. O desenvolvimento acontece quando aprendemos a escolher o que é conveniente. Assim separamos a virtude e o vício.
Nesse espírito devemos orientar nossos filhos na escolha dos seus jogos, desenhos e passatempos. A regra é sempre a mesma. Não deixe seu filho sozinho na pracinha. Encontre junto com ele os conteúdos que ele vai acessar e os jogos nos quais vai se divertir e brincar. Combine horários de uso – não deixe que ele fique o dia todo “grudado na tela”. Assista junto e faça comentários sobre o conteúdo, manifeste desacordos, aprovações e preferências. Em suma, faça-o perceber e aprender com você a ter uma leitura crítica e uma visão analítica da experiência digital.

Trazendo a discussão para um âmbito mais técnico gostaríamos de salientar que pais e mães atentos podem buscar mecanismos que protegem e restringem o acesso a certos conteúdos.
É possível configurar o seu navegador através de pluggins que filtram o conteúdo, permitindo e bloqueando os acessos conforme o perfil do usuário. Para mais informações de como programar o seu computador para o uso mais seguro do seu filho veja: https://new.safernet.org.br/content/mais-tempo-line-mais-mediacao-parental, lembrando que essas ferramentas não substituem sua importância como mediador.
Por fim, mas não menos importante, nunca é demais lembrar que quanto mais os filhos crescem mais longe eles vão, em todos os sentidos. Relacionam-se com mais pessoas e acessam mais conteúdo. A participação e mediação dos pais em relação a forma e a maneira como os filhos se relacionam com o mundo digital tendem, por isso mesmo, a se tornar cada vez mais importante. Num universo no qual o assédio e bullying são potencializados pela distância e pelo anonimato, a presença dos pais é decisiva para um desenvolvimento saudável. Por isso esteja sempre presente na relação dos seus filhos com o mundo digital. Aja sempre de forma transparente, sem neuroses ou tabus, mas sempre com firmeza quanto a orientações e restrições de uso necessárias e bem conversadas.
Se você gostou desse tema traga suas dúvidas, críticas e sugestões para que possamos juntos continuar a discussão. Afinal de contas a tecnologia não para de evoluir e o mundo no qual viverão os nossos filhos é e será cada vez mais digital. Nesse universo nos cabe pensar, estudar e discutir para que o digital seja nosso aliado.


Deixe um comentário