Não é de hoje que a saúde do bebê é motivo de atenção e dedicação dos pais e da sociedade como um todo. Nessa equação entram muitas variáveis, desde as recomendações do discurso médico às dicas e conselhos dos parentes e amigos. São conhecimentos que vão se alterando ao longo da história – enrolar ou não enrolar o bebê, leite materno ou fórmula, vitaminas e complementos nutricionais entre outras coisas – que as vezes acabam causando certa confusão na cabeça da principal pessoa incumbida de cuidar do bebê: a mãe.

Neste sentido, vamos falar da questão que realmente importa para esta coluna e que dá nome a mesma: A saúde mamãe-bebê. Queremos adotar aqui uma perspectiva mais relacionada ao campo dos afetos, mas nem por isso menos cientifica. Partimos da contribuição de D. W. Winnicott, psicanalista inglês que, entre tantas contribuições, centrava foco na importância da simbiose entre mãe e filho.
Segundo Winnicott, nos primeiros meses de vida, o bebê vive a fase da simbiose. Isto é, não têm uma consciência de si como um ser separado do ambiente em que se encontra. Pelo contrário, segundo o psicanalista inglês, a compreensão dos bebês abrange a mãe como ambiente, ele próprio como ambiente e o ambiente como ambiente. Ou seja, tudo se passa como se o bebê fosse ele mesmo todo o entorno. A partir daí, os movimentos do bebê acontecem por estímulos naturais de busca por satisfação da sua fome, sede e sono.
A partir do momento em que a mãe se transforma em um ambiente abundante, – e Winnicott usa a expressão “mãe-ambiente” para ressaltar essa perspectiva na qual o bebê se encontra – onde o bebê consegue saciar suas necessidades sem ter que lidar de uma maneira brusca com a falta, sua capacidade de autoestima e de sentir-se bem aumenta. Como ele e a mãe são a mesma coisa, ele sente que pode nutrir-se a si mesmo e portanto se sente bem. Ressalta-se ainda que a importância desse acoplamento mamãe-bebê vai para além das necessidades de nutrição física, mostrando-se fundamental para fortalecimento da relação prática do bebê consigo mesmo. Isto é, essa relação mamãe-bebê incide sobre a forma como ele vai desenvolver o seu ser no mundo.

Não se trata de uma relação mágica ou telepática, na qual o bebê absorve as emoções da mãe, e a mãe por sua vez sabe por intuição o que o bebê precisa, mas de um acoplamento verdadeiro, de uma relação na qual os dois – mamãe e bebê – são o mesmo ser. Não que não exista conflito nessa relação, ou que todas as mães e bebês a sintam da mesma forma. O primordial é que essa relação aconteça e que não seja interrompida de maneira a causar trauma para ambos, mamãe e bebê.
Evidente que muitas vezes a mãe pode sentir-se cansada, mas apesar de ser uma tarefa árdua, ela é passageira. Com o passar dos meses, o bebê irá crescer e cada vez mais adquirir a capacidade de permanecer sozinho por mais tempo. A mãe também irá voltar para suas outras atividades e passará menos tempo com o bebê. Porém, é muito importante que não haja uma quebra brusca dessa simbiose. Acelerar a ruptura não vai fazer o bebê ser mais maduro ou independente, muito pelo contrário. Somente uma pessoa que sabe que é amada pode ter uma relação de autoconfiança e autoestima bem sucedida.
A quebra da simbiose é um processo estressante tanto para o bebê quanto para sua mãe. O bebê tende a mostrar seu desconforto através do choro e até mesmo de atitudes agressivas para com a mãe. Porém se a mãe responde com ternura e compreensão, consciente da importância do seu amor para com o filho, o bebê começa a perceber duas coisas: 1. Ele e a mãe não são a mesma pessoa e 2. Não obstante, ele é amado.
Esta é a primeira relação social do bebê e servirá de espelho para todas as outras relações que se sucederão por toda a vida. Mesmo durante a infância, se a criança sabe que é amada e que pode voltar para baixo da asa da mãe caso tenha medo ou algum desconforto, sua relação prática consigo mesma tende a ser mais positiva e suas capacidades, sejam elas de se relacionar, criar e aprender, aumentam.

Assim, vamos abordar nesta coluna, questões sobre os cuidados com o bebê sob uma perspectiva que enfatiza a importância da simbiose mamãe-bebê e de sua quebra gradativa, que respeitando os afetos do bebê e da mãe garantem um desenvolvimento saudável.
Dito isso, fica a dúvida (que será discutida ao longo desta coluna): encontramos no nosso modelo de organização social as condições necessárias para que boa parte das mães e seus bebês possam viver a fase simbiótica de maturação sem que ela tenha que ser quebrada precocemente? Essa relação simbiótica é necessariamente tranquila para todas as mães? Quais são os fatores de conflito que incidem na relação mamãe-bebê?
Afinal de contas, se para cuidar da saúde e do bem-estar de uma criança o mais fundamental é o amor da mãe, devemos ter em conta que as respostas para estas questões deverão ser pensadas em um só caminho – o da construção de uma sociedade que valorize a infância e respeite acima de tudo essa relação.
Com amor conseguiremos!
*Este artigo é dedicado à mamãe Thais e ao bebê Ícaro. Obrigada por compartilhar este momento conosco.


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