Menino, tira a mão da boca!

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Por que os bebês tem o hábito de colocar tudo na boca?

Tira isso da boca, Marcelo! Tenho certeza de que por um bom tempo essa foi a frase que mais ouvi dos meus pais. Após alguns anos de análise revelarem uma certa prevalência da minha fase oral, pude entender um pouco mais sobre o que se passava comigo, com meus pais e também o que acontece nesse estranho e delicioso hábito de levar as coisas à boca. Mas esse texto obviamente não trata da minha vida e se você entrou aqui seu objetivo é entender um pouco mais sobre o universo da primeira infância, a partir de um enfoque filosófico e científico. Comecei, portanto, com essa frase porque certamente ela não foi dita só para mim. Ao contrário, essa é uma daquelas frases que ou você cansa de repetir ou você cansa de escutar!

Como é o costume aqui no Blog da UmBalalum, vamos refletir sobre o que está implicado neste hábito de levar as coisas à boca, a partir daquilo que a ciência nos diz. No texto de hoje vamos trazer um pouco das contribuições da pediatria, da psicologia e da psicanálise para que você possa compreender o que acontece com o seu bebê e praticar o cuidado consciente, que é sempre a melhor maneira de demonstrar amor pelos nossos filhos. Em primeiro lugar, não há nada de estranho, de errado ou de problemático no ato dos bebês levarem as coisas à boca. Muito antes, estranho seria se não o fizessem. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, o ato de levar pés e mãos à boca remonta ao período intrauterino e está intimamente ligado ao desenvolvimento do bebê, sobretudo ao desenvolvimento da capacidade de sucção, imprescindível para uma boa mamada.


Mas não é só isso. Os benefícios dessa prática, muitas vezes reprimida, não se restringem aos prazeres e benefícios do aleitamento materno saudável. Eles estão na base dos primeiros processos de descoberta e aprendizagem. Experimentando o prazer da saciedade, da segurança e do contentamento oriundos da amamentação, o bebê investiga o mundo através da boca, em busca de sensações similares. Como se fosse um detetive, o bebê faz da boca a sua lupa onde procura decifrar os estímulos de um mundo desconhecido. Não seria exagerado dizer que se nos adultos a linguagem simbólica funciona como um filtro capaz de organizar os dados do sentido, nos bebês, esse filtro, ainda bastante rudimentar, é a boca. Como a coordenação motora e suas funções neurológicas ainda são pouco desenvolvidas no recém nascido, é natural que ele utilize seu “aparelho” mais desenvolvido para compreender o mundo ainda desconhecido que o cerca, a boca.


Embora hoje a psicologia do desenvolvimento e outros ramos da ciência utilizem o termo fase oral para se referir a essa fase do aprendizado onde a boca serve de filtro para o mundo, possibilitando experiência e analogias, nunca é demais lembrar que o termo vem da psicanálise freudiana e foi utilizado para caracterizar uma das fases do período pré-genital da sexualidade infantil. Ainda que o tema da sexualidade das crianças seja um tabu na nossa sociedade, refletir sobre as instâncias do inconsciente é um dos melhores exercícios que os pais devem fazer não apenas em relação aos seus filhos mas principalmente em relação a si mesmos.

Extrapolando os limites da psicanálise freudiana e seus totens e seus tabus, podemos pensar na fase oral como um momento importante na formação do sujeito e de sua saúde afetiva. Segundo autores que seguem a linha da Teoria do Reconhecimento ( Axel Honneth, 2009), é na transição do seio da mãe para outros objetos que a criança vai paulatinamente experimentando a quebra da simbiose com o corpo materno e a consequente experiência de individuação em um mundo não necessariamente hostil. Em poucas palavras, percebendo a indisponibilidade do seio materno, ainda que momentânea, é natural que o bebê comece a substituir esse primeiro objeto de pulsão por outras coisas, dos dedinhos aos brinquedos passando por tudo que o cerca.


Mas nem tudo são flores nessa história de levar as coisas à boca. Alguns cuidados e limites são fundamentais na hora de pontuar as fronteiras entre a permissividade e a liberdade para o desenvolvimento. A ciência é unânime ao afirmar que é saudável que seu filho experimente o mundo, seus sabores e texturas, através da boca, mas pontua que alguns cuidados são fundamentais.


Como a boca é justamente esse filtro que permite a leitura do mundo, os bebê não possuem nenhum outro filtro capaz de orientar o discernimento entre o que levar e o que não levar à boca. Ou seja, muito provavelmente eles levarão TUDO à boca. Portanto, muito cuidado com as coisas que compõem o ambiente do seu bebê.


O ambiente do bebê é uma das coisas mais importantes para o desenvolvimento sensorial. Se você permitir que seu bebê tenha um ambiente estimulante, com objetos seguros e com texturas diferentes (como mordedores de variados formatos, por exemplo) você estará garantido, além de conforto e segurança, as condições para o desenvolvimento sensorial do seu filho. Não permita jamais que seus filhos brinquem próximo aos produtos de limpeza e materiais tóxicos ou perfurantes.


As mãos do bebê também são de suma importância nessa fase oral e os cuidados com a higiene devem ser sempre redobrados nessa região. Não permita em hipótese alguma que estranhos ou pessoas que chegaram da rua toquem a mão do bebê. Ele certamente levará a mão à boca, trazendo junto tudo aquilo que foi depositado pelo toque do adulto ou de outra criança.


Cuidado com os componentes dos brinquedos, controles, alarmes e chaveiros. Brinquedos para bebês não devem possuir de nenhuma maneira componentes pequenos que possam ser engolidos. Isso é muito sério. Lembre-se que seu filho certamente vai morder, sugar e chacoalhar o brinquedo, certifique-se que ele não possui “pecinhas” pequenas que se desmontadas possam ser engolidas. Reforce os cuidados com chaves de carro e alarmes em geral. Eles possuem uma bateria interna, esférica, muito parecida com pastilhas. Além de facilmente engolidas, essas baterias são extremamente tóxicas. Caso seu filho faça a ingestão de algum desses itens, dos plásticos às baterias, não hesite em procurar um médico.


Tomando esses cuidados você não encontrará problemas em permitir que seu filho leve tudo à boca. Prestando atenção para que esse tudo seja exatamente aquilo que você escolheu e permitiu que compusesse o ambiente do bebê, você só encontrará benefícios em permitir que ele experimente o gosto e a textura do mundo através desse filtro maravilhoso chamado boca. Afinal de contas, até nós, adultos, experimentamos muito prazer através da boca e do paladar. Quem nunca salivou e se viu ansioso para experimentar uma nova receita ou uma comida exótica? Quem não gosta de fazer turismo gastronômico e conhecer a cultura de um povo através dos seus pratos e sabores?

Mas, como tudo na vida, é necessário saber distinguir o bom e o ruim no uso dos prazeres. Hoje a psicologia comportamental já fala até mesmo em uma certo desvio chamado de “comer hedônico”. Isso acontece quando concentramos boa parte dos nossos prazeres nos atos de comer. É o famoso “descontar na comida”. Não tem nada de errado em enfiar o pé na jaca em momentos difíceis ou de angústia. O problema acontece quando esses momentos são transformados em rotina e quase todos os prazeres passam a se relacionar ao ato de comer e consumir. Como muitas vezes esses hábitos são formados na infância, cabe aos pais estabelecer limites para uma transição sadia da fase oral para outras fases da infância.


Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, o ato de chupar dedos e afins é uma pratica saudável compreendida nos primeiros dois anos de vida da criança. Após esse período, como a criança desenvolve outras fontes de relação com o mundo, a ênfase oral deve ser paulatinamente abandonada. Contando para isso, muitas vezes, com a orientação e intervenção dos pais e cuidadores. De nada adianta a adoção de práticas abruptas ou dolorosas, como as famosas pimentas nos dedos e chupetas. A transição deve ser lenta, gradual e dialogada. Mas firme e segura.


Caso a criança tenha severas dificuldades em abandonar o hábito, ou a ele tenha retornado em função de algum evento extraordinário (como a chegada de um novo bebê, por exemplo), deve-se acompanhar o caso mais de perto, investigando com ajuda de psicólogos e profissionais capacitados, a possível presença de fontes de ansiedade. O ato de levar as coisas à boca por estar associado à segurança e conforto, quando presente em casos atípicos pode indicar a presença de inseguranças e angústias típicas da formação da subjetividade.

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Referência Bibliográfica: HONNETH, Axel. Luta por Reconhecimento. A gramática moral dos conflitos sociais. 2ª ed. São Paulo: Editora 34, 2009.

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