O artigo de hoje trata de um tema bastante delicado, tão delicado que chega a ser invisibilizado, estigmatizado e ignorado por grande parte das colunas sobre maternidade. Para gestantes e puérperas este é um assunto de urgência, pois a linha que separa a sensação de exaustão e ansiedade – vividas na gestação e no puerpério – e uma depressão prolongada é muito tênue. Muitas de nós idealizamos a gestação, o parto, a amamentação e a maternidade. Mas nós não idealizamos sozinhas, não somos nós que criamos do nada um ideal de mãe forte, guerreira e serena em nossa cabeça. Esse ideal é quase imposto, esta nas exigências do mercado, nas fotos das revistas, no imaginário dos homens que querem uma família perfeita. Os papais também podem ser acometidos por essa idealização e assim como as mães, em menores proporções e exigências, sofrerem de depressão pós-parto. Porém me limitarei a falar da questão pelo viés materno, a fim de direcionar melhor as análises e conclusões em um texto sucinto.
Para a realização deste texto foi necessário um garimpo de artigos que contivessem informações precisas sobre depressão pós-parto (DPP). A maioria dos artigos encontra-se na área da saúde e muitos deles apresentam informações controversas ou insuficientes para chegar a qualquer conclusão. No final da pesquisa, o que a maioria dos artigos apresentam é a importância de mais pesquisas e artigos sobre o tema. Ou seja, pelo viés da saúde a DPP deve ser diagnostica e tratada o mais rápido possível. Todavia, afirmam os analistas, a DPP não pode ser prevenida em virtude da limitação do conhecimento disponível sobre o tema.
Partindo da psicologia para delimitar o que é o transtorno mental e psicológico da depressão pós-parto, distinguindo-a de outros transtornos e posteriormente trazendo pesquisas que avançam no sentido de mostrar fatores de risco de proteção podemos chegar á uma aproximação da ideia de prevenção; não só no acompanhamento da saúde da mulher mas também na necessidade da implementação de um novo conjunto de ideias sobre a maternidade que seja capaz de fomentar o bem estar materno, a segurança e apoio da sociedade à uma maternidade não idealizada. O que é a Depressão Pós-Parto ou DPP. Segundo Arrais, Araujo e Schiavo (2018) a DPP é uma das complicações mais comuns vivenciadas durante o puerpério, e pode atingir 15% a 20% das puérperas no nível da população mundial. No Brasil, os estudos têm apresentado porcentagens ainda maiores, a cima de 30% em média, no período de 6 a 18 meses após o nascimento do bebê.
É importante distinguir a DPP do chamado Baby Blues, que é uma especie de tristeza que acomete cerca de 80% das mulheres na primeira semana após o parto. Essa tristeza, é considerada normal, visto que a mulher passa por muitas transformações hormonais e momentos de tensão antes, durante e nos primeiros dias de vida do bebê. Ainda assim essa tristeza, o tal Baby Blues tende a desaparecer lá pela segunda semana após o parto, o que não acontece com a DPP.
No caso da DPP a tristeza aumenta e pode se estender até um ano após o nascimento da criança. Há estudos que apontam para um aparecimento tardio da DPP, ou seja, ela pode surgir em um período bem posterior ao parto. É caracterizada por um desanimo profundo, ataques de pânico e ansiedade, excesso de sono ou insônia, cansaço, alterações de apetite, transtornos obsessivos compulsivos, preocupação exagerada com o bebê, medo de machucar o bebê, pensamentos de morte e suicídio.
Como a mulher esta passando por um momento da vida onde é atravessada por muitos fatores estressores, como alteração da rotina de sono devido aos cuidados com o bebê, adaptação ou até mesmo problemas com a amamentação, adaptação da percepção sobre si mesma enquanto mãe, pode haver dificuldade em estabelecer o diagnostico da DPP sem uma consulta adequada a um profissional especializado. Outro agravante para a falta de diagnostico da DPP é que as consultas médicas dedicadas ao puerpério e amamentação, quando disponibilizadas, normalmente têm foco na saúde exclusiva da criança e não na saúde física e psicológica da mãe.
Mas se não há prevenção para a DPP e o diagnostico é tão difícil, será que não existem práticas que possam melhor a relação da mulher com ela mesma, ou até mesmo práticas que permitam uma construção de maternidade mais sensível ás dificuldades e, justamente por isso, menos romântica. A Gestação É comum que as mães relatem ansiedade e até mesmo melancolia durante a gestação. Estes processos podem ser acentuadas com a proximidade do parto, ou posteriormente com as mudanças de rotina ocasionadas pela chegada do bebê. Já no inicio da gestação, o corpo da mulher passa por muitas mudanças e há muita sensibilidade emocional – o que pode alavancar choro fácil ou irritabilidade. Além disso, há uma ideia bastante invasiva em nossa sociedade de que as grávidas são “domínio público” e as pessoas tendem a ficar dando palpites, conselhos e até mesmo tocando a barriga das mulheres sem consentimento. Isso tudo pode fazer com que a mulher se sinta confusa com sua própria identidade, pois não têm sua individualidade respeitada. E não há forma de se acostumar com a gestação, pois a cada semana aparecem sensações diferentes que vão exigir da gestante uma adaptação verdadeiramente camaleônica. Nada mais normal que apresentar alterações de humor nesse período, sempre cuidando para que a tristeza e melancolia não sejam preponderantes.

Nesse sentido recomendamos que você investigue as próprias tristezas e as melancolias ao invés de ficar se culpando ou exigindo de si mesma uma alegria forçada. Respeite esse momento e crie as condições para abrir espaço e tempo para compreender essa miríade de transformações que afetam o seu corpo e a sua mente. Caso você estiver sensível e chorona, aproveite para assistir um bom filme emocionante (só não vale assistir terror ou filmes trágicos) se estiver com sono durma, se estiver estressada tome um bom banho quente. Respeite-se. Seja, tanto quanto possível, a senhora do seu próprio tempo. Caso você tenha que trabalhar fora ou tenha que sair na rua e ver pessoas, mesmo que não queira, permita-se responder somente o necessário, você não é obrigada a ficar falando com os outros quando não esta a fim. As vezes a gravidez pode trazer um sentimento de encasulamento. Você prezará a sua intimidade e consequentemente perceberá a necessidade de respeitar uma certa distância em relação às demais pessoas. Se você mora com seu companheiro explique para ele o que esta sentindo para que não hajam desavenças entre vocês e ele possa compreender e respeitar esse momento único.
Compartilhar experiências pode ser bom. Participar de um grupo de gestantes pode te ajudar a perceber que outras grávidas sentem coisas parecidas com o que você esta passando. Ou não, pode ser que elas sintam coisas absurdamente diferentes e isso faça você se sentir mais normal. Enfim, pode ser uma experiência interessante e de bastante aprendizado desde que você esteja a fim. Nada de ficar se obrigando a participar de coisas que não quer.
Estabeleça uma rotina de autocuidado, com banhos relaxantes, exercícios leves e curtos, estudos sobre gestação, parto e cuidados com o bebê que te deixarão mais tranquila e confiante. Planeje seu parto e sua organização no puerpério. Sem muitas idealizações e ideias fixas, pois pode ser que as coisas não saiam como planejado e você deve estar preparada emocionalmente para ser flexível. Tente compartilhar essa experiência toda com seu companheiro, sua mãe ou sua amiga. Se não houver pessoas com quem contar busque um grupo de apoio, consultorias gratuitas na internet ou o serviço de uma Doula. A Hora do Parto O Parto é sem dúvida um momento muito forte. Por isso é importante estar preparada, faça exercícios de respiração e yôga durante a gestação. Visite a maternidade e pergunte se é possível fazer o parto como você quer naquela instituição. Escreva um plano de parto, arrume a bolsa de maternidade e converse com seu companheiro ou quem for te acompanhar. É importante que seu acompanhante encontre, ele também, as condições para estar a altura desse acontecimento. Contudo, nunca é demais lembrar que as coisas só saem conforme o planejado no planejamento. Como diria o poeta “a vida é real e de viés”, portanto é perfeitamente natural que imprevistos aconteçam. O importante é não idealizar e estar aberta para a contingência. Não obstante, quanto mais você refletir e organizar, menos espaço você legará à imaginação e as suas peripécias.

Nos sempre recomendamos um parto ativo por via vaginal, pois permite maior protagonismo da mãe, assim como decisão na hora de escolher a postura mais comoda para trazer o filho ao mundo – além dos inúmeros benefícios para saúde e vinculo da mãe com o bebê. Porém se você optar ou precisar de um parto por cesárea o fundamental para a saúde emocional é que você consiga digerir o acontecimento do parto, processar a informação emocionalmente e passe para a próxima etapa sem traumas. O Puerpério É todo um trabalho de deixar de estar gestante e tornar-se mãe. Toda uma transformação, um encontro com uma nova identidade. O puerpério é tão intenso e confuso, tão único para cada mulher que é impossível construir qualquer previsão. Por isso é importante controlar as expectativas e imaginação sobre esse período. A ideia de apaixonar-se pela criança, ter energia extra para cuidar, amamentar e ainda ter tempo para você é só uma idealização. O tempo se transforma radicalmente depois que a criança nasce. Por mais que você utilize métodos para implementação de uma rotina com o bebê – o quê, aliás, é muito recomendado – a estabilização da relação simbiótica mamãe-bebê não acontece da noite para o dia.
As noites que desafiam até mesmo aquelas que tem o sonho e a vontade de ser mãe como ideal de vida, na qual você terá que acordar e amamentar, parecerão infindáveis. Os momentos em que o bebê dorme e você planeja fazer tudo que deixou de lado enquanto ele estava acordado parecerão curtos. Você será interrompida inúmeras vezes enquanto toma banho, come ou faz qualquer outra coisa. É uma verdadeira prova de fogo!
Têm coisas maravilhosas também, o bebê te surpreenderá todos os dias com seu desenvolvimento. O desenvolvimento do vínculo simbiótico traz em seu bojo uma alegria que única da experiência de tornar-se mãe. Mas a palavra desenvolvimento, aparece antes de vínculo, justamente para enfatizar que trata-se de um processo. E muitas vezes as mulheres acham que o amor materno acontece desde a gravidez. Pode acontecer. Mas pode ser que você demore um pouco mais a superar o parto e que a fase do Baby Blues na qual você esta conhecendo seu filho e tornando-se mãe dure mais tempo. Um dos sintomas mais relatados pelas mães com DPP é a culpa. A culpa é um sentimento quase que imanente a maternidade e tende a aparecer enquanto se é mãe, ou seja, toda a vida, se não for estudada, identificada e superada. Quando se sente culpa, a melhor coisa a fazer é identificar o motivo da culpa e tentar não repetir o erro. Ou seja, aprender. E ao estabelecer o processo de aprendizagem, a culpa deve ser descartada pois o motivo da culpa já foi eliminado. Assim, o puerpério como movimento de aprendizado, de tornar-se mãe deve ser livre de culpa. Outro afeto muito frequente no puerpério é o medo e os ataques de pânico. O medo pode ser alavancado por uma série de condições, desemprego, problemas financeiros, conflito com o pai da criança ou com outros familiares. O problema do medo é que ele faz com que a pessoa fique paralisada e interrompa o processo de aprendizagem. A culpa e o medo, combinados a ansiedade a ao stress podem fazer com que a mulher perca a vontade das coisas, a vontade de aprender, de conhecer seu bebê, de tornar-se mãe. É o que a literatura cientifica chama de disforia.
É claro que as transformações hormonais da gestação e puerpério, assim como antecedentes de distúrbios psicológicos podem fazer com que nosso cérebro acentue essas sensações. Se não for possível superá-las nesse processo de aprendizagem a ponto das mesmas o paralisarem por muito tempo é importante procurar ajuda profissional, fazer um terapia (aí existem muitas, da psicanalise a acupuntura), buscar apoio com amigos e parentes ou até mesmo buscar um psiquiatra para tratamento alopático. Mas ressaltamos que mesmo com tratamento é importante retomar esse processo de aprendizado pois ele é sadio e bom para a mãe e para o bebê e é o que permite, ao contrario da idealização da maternidade, uma verdadeira realização do devir mãe. A Evolução das Pesquisas Sobre DPP As pesquisas sobre a correlação entre DPP e fatores demográficos e sociais ainda são bastante limitadas tanto em termos de campo quanto de metodologia. Porém, se antes eram observadas de perto somente aquelas mulheres com antecedentes de distúrbios psicológicos, agora já são apontados como fatores que interferem na possibilidade da mulher desenvolver uma DPP a relação conjugal, o planejamento familiar, a relação com parentes, as condições sociais e financeiras, os tipos de parto, as condições para a efetivação do aleitamento materno, entre outras questões estruturais e sociais que levam a um interesse da resolução do problema da DPP no nível preventivo e não somente de diagnostico e tratamento.
Os fatores de risco como antecedentes de transtornos psicológicos da mulher ou de algum membro da família devem ser observados e tidos como fatores agravantes, mas outras questões como negligência paterna, exposição a violência doméstica ou obstétrica e falta protagonismo da mulher com relação as decisões de parto, amamentação e criação do bebê também começam a ser vistos como potenciais gatilhos da depressão. As pesquisas pressionam a comunidade cientifica e o sistema de saúde a reconhecerem a importância da DPP enquanto questão de saúde pública o que deve nos trazer resultados mais conclusivos nos próximos anos. A Um Balalum incentiva práticas de autocuidado e autoconhecimento a fim de contribuir beneficamente sobre esse tema ainda que uma prevenção da DPP não seja considerada como existente no campo cientifico. Nesse sentido, nós reconhecemos os limites da nossa própria abordagem e ainda que encorajemos a reflexividade enquanto um remédio sem contraindicações – disposto a nos libertar dos grilhões impostos pela idealização da maternidade – reconhecemos também que cada mãe é uma mãe, e na sua singularidade deve ser reconhecida. Portanto, longe de oferecer uma receita de bolo, que seria mais uma idealização, nós da Um Balalum fazemos votos de que você possa encontrar todas as condições e as possibilidades de autoaceitação para que com isso a gestação e o advento sejam vividos em toda a sua plenitude em meio a todas as suas idiossincrasias.
Referência Bibliográfica:
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