Precisamos Falar Sobre Paternidade Ativa

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Um assunto vem ganhando corpo nas redes sociais nos últimos meses. Trata-se da noção de paternidade ativa. O assunto é alvo de um debate acalorado. Enquanto para alguns essa noção representa uma verdadeira transformação dos costumes e da relação pai e filho, para outros a tal da paternidade ativa não seria outra coisa senão o nosso velho hábito de premiar determinados grupos por comportamentos corriqueiros. Tentaremos aqui lançar alguma luz sobre os processos envolvidos na emergência dessa discussão. O objetivo será então separar o “trigo do joio” para evitarmos a atitude de “despejar o bebê junto com a água do banho”.

A ideia de paternidade ativa foi cunhada para expressar uma ruptura e uma distinção no interior do conceito de paternidade. Visando transformar o conceito de paternidade, conforme nos fora legado pela nossa tradição conservadora, os adeptos da paternidade ativa visam salientar que as atividades envolvidas na paternidade – isto é na relação pai-e-filho – vão muito além da provisão e da autoridade. Se o conceito de paternidade, dizem os defensores da ideia, não fosse um conceito patriarcal não precisaríamos de um novo conceito. Portanto, para aqueles que defendem uma paternidade ativa, a figura paterna deverá superar a figura do provedor e daquele que é responsável pelos processos que a psicanálise subentende sob a alcunha de castração. Não basta ser pai, é importante participar – diz o jargão publicitário da paternidade ativa.


Por outro lado, muitas vezes a paternidade ativa transcende a relação pai-e-filho e se transforma num rótulo exibido como troféu. Não devemos esquecer o fato de que nossos filhos nasceram na sociedade do espetáculo. Modos de existência se transformam em estilos de vida e tudo o que importa é o sucesso dos likes, dos compartilhamentos e dos aplausos. Pior do que isso, quando a paternidade ativa é transformada em valorização de ativos intangíveis cujo elemento precificado é uma subjetividade reificada isso diz muito sobre a sociedade em que vivemos. Nos diz tanto sobre a necessidade de nos apresentarmos ao mundo enquanto produto e enquanto imagem e nos diz também sobre a maneira como a sociedade atribui diferentes valores aos mesmos produtos.


A principal crítica ao conceito de paternidade ativa recai na ausência de contrariedade da noção. Isto é, a sua ausência de equivalente quando se trata da maternidade. Para este tipo de crítica vale o seguinte argumento: como não existe uma maternidade ativa, existe apenas maternidade, mutatis mutandis, seria absurdo conceber uma paternidade ativa. Mais do que isso, falar em paternidade ativa seria premiar os homens por um comportamento corriqueiro realizados com maestria pelas mulheres durante séculos e séculos.

A crítica tem a sua razão de ser. Por séculos e séculos a nossa sociedade sempre premiou determinados grupos quando estes eventualmente realizavam uma tarefa corriqueira, fazendo tábula rasa daqueles que realizam essa mesma tarefa ao longo da vida. O exemplo máximo desse tipo de comportamento é o “caso do filho homem”. Quem nunca vivenciou a experiência de ouvir relatos de mães orgulhosas de seus filhos homens quando estes “ajudam” nas tarefas domésticas, fazendo vista grossa de suas filhas mulheres que quando limpam “não fazem mais do que a obrigação”. Fonte e a origem de toda dominação masculina, a distinção entre ajudar e fazer a obrigação revela o modus operandi de uma sociedade que atribui lugares naturais para determinados gêneros e atividades.


Dessa maneira, se a paternidade ativa ficasse reduzida a um rótulo que expressa uma valorização injusta ela não passaria de uma atividade típica de “machos que querem biscoito”. Contudo ela não fica. Isso porque a ausência de oposto feminino para o conceito revela que o seu objeto não recai na relação entre homem e mulher. O pai ativo não é aquele que ajuda a mãe. Esse é o bom companheiro e suas atividades não estão diretamente relacionadas ao filho. O pai ativo é aquele que procura no encontro com o seu filho as condições de possibilidade de desenvolvimento mútuo. Deixando de representar um papel legado pela tradição, o pai ativo procura inventar novos modos de existência a partir da abertura ocasionada pelo advento dos filhos.

É evidente que tudo isso passa pelos cuidados mais elementares com a criança – das fraldas aos banhos. Mas está longe de terminar por aí. Os cuidados elementares são a condição de possibilidade e a via de acesso para outros cuidados – do cuidado de si ao cuidado do outro. Ser pai ativo é transformar a paternidade, é criticá-la nos seus elementos embrutecedores. É compreender que a educação para a liberdade é um processo de mão dupla.


Compreender a paternidade ativa como um favor que o pai faz para a mãe é não compreender nada do que se passa. É claro que uma atividade realizada por duas pessoas é muito mais tranquila do que esta mesma atividade realizada por uma pessoa só. E disso, talvez, se possa deduzir que é melhor ter um companheiro que é um pai ativo do que não ter, quando o assunto é a criação dos filhos. Mas a paternidade ativa não é uma relação entre esposos ou companheiros. É uma relação entre pai e filho, ou pai e filha. Por isso um pai ativo não ajuda uma mulher, ele cumpre o seu dever – cuida, educa e se liberta de muitos grilhões.


Para concluir, dizer que não é uma relação entre homem e mulher não significa dizer que esta relação não esteja envolvida na paternidade ativa. Não seria exagerado dizer que a paternidade ativa só se tornou possível a partir da luta das mulheres por direito e igualdade. Sem a presença massiva das mulheres no espaço público e no mercado de trabalho seria muito difícil conceber qualquer noção de paternidade para além da figura do “homem provedor”. Com isso, se evitarmos o movimento de transformar tudo o que fazemos em espetáculo, teremos muito a ganhar com o incentivo à paternidade ativa e os seus benefícios libertadores.

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