Tornar-se mãe, tornar-se mestre!

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A equipe de especialistas da Um Balalum é composta por mestres e doutores oriundos de diversos campos do saber. Em virtude disso, algumas brincadeiras já se tornaram lugar comum nas nossas reuniões. Embora no universo acadêmico o título de doutor seja proeminente em relação ao de mestre – afinal o mestrado antecede o doutorado – costumamos brincar, na nossa redação, que na vida real é muito mais bacana ser mestre do que doutor.


Vejam vocês, quem são os mestres na nossa cultura pop? Aqui seria possível perfilar uma série de sujeitos fantásticos: Mestre Splinter, dos tartarugas ninjas; Mestre Miyagi, do Karate Kid; Mestre Yoda, da franquia Star Wars e assim por diante. Já no campo dos “Doutores” os tons já parecem muito mais sombrios. Numa lista encabeçada pelo incomparável (em termos de perversidade) Dr. Strangelove, ou Doutor Fantástico, de Stanley Kubrick, poderíamos ainda citar: Doutor Frankenstein (sim, Frankenstein originalmente era o nome do cientista, não o do monstro por ele criado); Doutor Hannibal Lecter, o canibal de O Silêncio dos Inocentes; Doutor Fausto de J. W. von Goethe e, entre muitos outros; Doutor Simão Bacamarte do gigante Machado de Assis.

Quando começo a pensar no caráter hilariante desse tipo de comparação, imediatamente me vêm à cabeça o célebre adágio popular: toda brincadeira possui um fundo de verdade. O que a primeira vista pareceria uma mistura espúria multiplicada por muitas instâncias – mistura entre brincadeira e conhecimento, entre imaginação e entendimento – no final das contas se revelaria como uma pérola de sabedoria. Esse fundo de verdade de toda brincadeira seria, nessa visão, justamente aquilo que permite com que a brincadeira venha a habitar o ser. Ou, em outras palavras, faça parte de um conjunto de relações que nós costumamos chamar de realidade.


Dessa maneira, qual seria essa verdade compartilhada pela brincadeira, pelo chiste, pela piada, ou ainda pela literatura fantástica. Se o ser se diz de muitas maneiras – como afirmava o filósofo grego Aristóteles – todas essas formas de narrativa possuem em comum uma maneira peculiar de dizer o ser. Através da fabulação, da distorção ou do exagero de certas características e de outros expedientes imaginários – da piada1 à literatura fantástica – o que está em jogo em tudo isso é uma espécie de apresentação da realidade que, entre paralogismos e anfibolias, dá o que pensar.


No caso dos mestres e doutores da nossa cultura pop, o que a brincadeira nos diz, ou, em outras palavras, o que ela nos dá o que pensar? A literatura e a cultura pop invertem a lógica acadêmica para criar duas ficções, dois tipos ideais, que possuem em comum com os títulos científicos apenas o nome. Em primeiro lugar, tomamos contato com duas séries completamente distintas. De um lado estão os sábios que fazem do conhecimento um saber prático disposto a orientar os seus discípulos na vida cotidiana. Estes são os mestres. De outro lado, isto é do lado dos doutores, estão aqueles dispostos a fazer do conhecimento abstrato a pedra filosofal sob a qual eles pretendem erigir um mundo, a sua imagem e semelhança.

Enquanto os doutores procuram transformar a realidade a partir dos seus desígnios (muitas vezes inconfessáveis) – produzindo monstros e quimeras – os mestres investem num outro tipo de saber. Para os Miyagis, Yodas e afins, muito mais importante do que transformar a realidade é produzir um tipo de conhecimento – um saber prático – capaz de instruir os seus discípulos, tornando-os fortes e aptos a fazer frente aos desafios do cotidiano e a estar preparados para os desafios do futuro.


Dessa maneira e, com isso, tocando diretamente no tema que nos interessa aqui nesse espaço, como essas questões aparentemente literárias tocam no nosso assunto principal, isto é, a maternidade? Evidentemente que o conceito de mãe não envolve o conceito de doutor, tal qual podemos definir a partir da literatura e da cultura pop. É evidente que toda mãe gostaria de transformar a realidade para construir um mundo melhor no qual seus filhos possam viver mais e melhor. Mas nem por isso elas procuram construir monstros e quimeras. E se o fazem é justamente por desenvolver uma ideia inadequada da maternidade e da relação de seus filhos com o mundo.

De outro lado, entre o conceito de mestre e a maternidade muitas afinidades eletivas parecem se desenhar. Afinal de contas, educar os filhos não é outra coisa senão formar esse saber prático disposto a orientar nossos filhos diante das dificuldades da vida e dos desafios do mundo. É justamente esse o trabalho do verdadeiro mestre. Sabendo que somente na imaginação a realidade será tal qual a desejamos, o mestre instrui os seus discípulos a se constituir de forma tal que sempre poderão fazer frente aos desatinos de uma vida cujo controle nos escapa a todos os momentos.


Por isso acreditamos que a maternidade seja sempre um convite à maestria e que tornar-se mãe é sempre a oportunidade para tornar-se mestres. Da mesma forma que o nascimento de um filho é também o nascimento de uma mãe, defendemos que aquilo que produz o mestre é sempre a chegada do discípulo. Ainda que a arte seja longa e a vida seja breve, diferentemente de um doutor que precisa manusear a totalidade de uma ciência para produzir um mundo, o mestre pode dar início aos seus trabalhos no exato momento em que aparece o discípulo. Nem um dia antes, nem um dia depois.


A razão disso recai no fato de que o mestre possui maestria sobretudo num único aspecto. Aquele que ensina é mestre em aprender. Porque ele aprende ele pode ensinar a aprender. É por isso que a relação de maestria é sempre transformadora. No final do dia, mestre e discípulo sempre estarão transformados. Tanto é assim que um dia o discípulo poderá se tornar, ele mesmo, mestre.


Mas no turbilhão das sociedades modernas, o que é tornar-se mestre dentro da própria relação de maternidade? Sabemos que vivemos numa sociedade bastante escolarizada. Possuímos um amplo debate pedagógico e novas formas de transmissão e produção de conhecimentos. Mas isso toca muito de leve nas necessidades que um verdadeiro mestre deve suprir. Sem dúvida nenhuma, os conhecimentos que nossos filhos adquirem na escola serão fundamentais para o desenvolvimento das suas capacidades de fazer frente aos acontecimentos da vida. Contudo, se os conhecimentos científicos e aplicados são necessários para ter uma vida boa e próspera eles não são suficientes. É aí que a maestria deverá incidir.

Devemos sempre instruir os nossos filhos na arte de aprender, porque não basta que possuam conhecimentos teóricos ou aplicados às diversas áreas das técnicas e das ciências. Devemos mostrar na prática que aprender não envolve apenas adquirir novos conhecimentos, mas antes em transformarmos a nós mesmos. O sábio não é apenas aquele que domina muitos assuntos, mas é aquele que em cada situação sabe descriminar as conveniências e as inconveniências do que ocorre. O sábio é aquele que é capaz de afirmar e de negar, conforme essa conveniência. É aquele que sabe limitar-se a si mesmo, justamente para poder expandir as suas forças e alegrias.


Num universo repleto de estímulos, informações, produtos e relações saber discriminar a conveniência e a inconveniência dos encontros que fazemos no mundo é tão fundamental quanto saber ler ou calcular. Como diz a canção popular, ser mestre é saber ensinar os seus filhos a escolher os seus amores. Que saibamos portanto estar a altura dos desafios que a chegada de um filho impõe. Que aceitemos o convite à maestria para que, limitando nossos filhos e a nós mesmos aos bons encontros, possamos sempre dar vazão a toda uma arte de viver, capaz de esbanjar alegria mesmo em face de um mundo cada vez mais incerto.

1Toda a piada possui o seu fundamento na realidade e no absurdo. Inclusive a piada preconceituosa, com a ressalva de que esta última não nos diz nada sobre o mundo, revela apenas a natureza daquele que é preconceituoso.

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