A criança e a fantasia ou do devir-criança da criança

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Falta pouco para a celebração do carnaval “in Terra Brasilis”, o que fatalmente transformará nosso vasto território em Terrae Incognitae, sugestionando o imaginário de cartógrafos de plantão na tentativa deliberadamente efêmera de povoar todo nosso território imaginário. Ainda que outrora, nos já longínquos carnavais de Chicos Buarques e Robertos Da Matta, a festa se caracterizasse por uma inversão quase simétrica entre os barões e a ralé, hoje não seria ousado afirmar que o bloco dos napoleões retintos parece fazer água. Não só o país mudou como também o carnaval já não é mais a mesma festa. Numa palavra, tudo se pluralizou.

            Pluralizaram-se as estruturas sociais, cada vez mais diversificadas, embora não menos desiguais, e, pluralizaram-se também, as suspensões dos interditos. Não se espera mais pela famigerada semana do carnaval para se colocar em suspenso as normas sociais e as expectativas de comportamento. A impressão que temos hoje é a de que vigora um carnaval para cada “sextou”.

            Mas longe de tirar o brilho da festa, a liberalização dos costumes e a diversificação da estrutura social permite lançar luz sobre certas práticas que ainda que não se restrinjam ao carnaval, contudo, adquirem, no período, uma relevância sobressalente. Afinal de contas, invertidas ou não, as performances carnavalescas nas terras de Joãosinho Trinta, sempre primaram pelo artifício da fantasia.

            Ainda que não se trate mais, necessariamente, de se fazer o que não se é, enquanto se desfaz aquilo que se é, numa espécie de sartreanismo carnavalesco, a fantasia e o fantasiar-se adquirem toda a sua exuberância nesse eclipse do verão chamado carnaval. É o momento de se deixar levar, como numa canção de Zeca Pagodinho. Mas isso não é tudo. Afinal de contas o que está em jogo nessa levada?

            Aqui um olhar em direção às crianças pode ser mais do que instrutivo. Pois a criança não apenas fantasia e se fantasia. A criança devém. O termo devir, vocabulário técnico extraído do acevo filosófico do pós estruturalismo francês para significar um processo no qual a extração de partículas é capaz de instaurar um novo conjunto de relações, pode parecer afetado demais, sobretudo num texto despretensioso como esse. Mas não é o caso. Muito antes ele é preciso, em todas as acepções do termo.

            A criança e sua fantasia são capazes de devir justamente porque aqui não se trata de imitar, nem de apenas ser alguma coisa. Mas de instaurar um processo no qual podem ser elencados inúmeros recrutas e artifícios para enredar uma narrativa na qual os elementos que não preexistem ao vir a ser vão se tornando fundamentais para o que se apresenta.

            Isso é muito diferente de imitar alguma coisa, ou mesmo de apenas fingir. A criança pode fantasiar baseada nas mais diversas inspirações, mas apenas ocasionalmente seguirá um modelo ou uma receita a partir do qual ela possa avaliar o sucesso de sua fantasia, exceto se a isso for compelida por incentivos de segunda ordem. O grau de fluidez, equivocidade e invenção poderiam, nessa brincadeira do carnaval, funcionar como verdadeiros quesitos para uma escola de samba, ainda que seja a escola de uma criança só.

            Nesse universo de fantasia, caberia aos pais e responsáveis encorajar todas as centelhas de criatividade. Longe de fornecer sugestões e fantasias que orientem as crianças a performar papéis bem estabelecidos na nossa sociedade, poderíamos aproveitar a ocasião para permitir ao imaginário da criança jogar o papel de guia nessa brincadeira. Não apenas comprando novas e vistosas fantasias, mas encorajando nossas crianças a atuar como verdadeiros bricoleurs. Permitir que trapos, panos, miçangas e afins liberem todo o seu volume numa experiência compósita cujo o resultado não precede a manufatura. Que o destino surpreenda a origem e que a fantasia encontre o devir nessa explosão de criatividade chamada carnaval, é isso o que sugere o devir-criança em suas fantasias.

            Vale lembrar que algumas modas do passado devem permanecer onde estão. Isto é, no passado. Se o legal da brincadeira é inventar narrativas e criar personagens, nunca é demais lembrar que etnias e afins não são fantasias. Vamos  deixar nossas crianças bem longe das paródias e das imitações que violentam e satirizam identidades. Além de orientá-las no sentido do respeito aos outros e à diferença, não haveriam razões para tolher um imaginário tão fértil na arte compósita, capaz de engendrar as maiores mirabolâncias. Ainda mais se for para adequá-las a um senso antiquado de piadas e provocações que só fazem sentido e graça para adultos socializados num meio acostumado a fazer troça daqueles que não são vistos como iguais. Deixemos a criança exercitar o seu livre brincar e com isso estaremos não apenas fazendo uma festa mais colorida e fantasiosa, mas estaremos também educando e estimulando a criatividade de nossas crianças na inelidível tarefa de criar novos mundo num universo cada dia mais saturado.

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