A Criança, o Brinquedo e o Brincar

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O filósofo norte-americano George Herbert Mead, um dos pioneiros do pragmatismo, apontava para a importância da imitação, da brincadeira e do jogo na formação das crianças. Mostrando o vir a ser de um processo que culminava na formação da autoconsciência, Mead estabeleceu, por assim dizer, as bases daquilo que mais tarde a sabedoria popular consagraria na máxima: é brincando que se aprende.

            Não se trata de aprender apenas essa ou aquela habilidade específica, mas de desenvolver as próprias condições do aprendizado em geral. Imitar, brincar e jogar seriam assim etapas da formação daquilo que a psicologia social definiu como self. É, portanto, à guiza de brincadeiras que nossas crianças vão desenvolvendo sua consciência e sua personalidade.

            Isso seria chover no molhado se não estivéssemos às vésperas de uma extinção do brincar. Paradoxalmente, num contexto onde abundam os brinquedos dos mais variados tipos, cores, formatos e funções, a brincadeira parece estar marcando passo. Com o desenvolvimento da indústria dos brinquedos e seus marketplaces gigantescos, online e offline, têm-se a impressão de que hoje os brinquedos brincam mais do que as crianças. Nessa performance colorida, luminosa e polifônica, o brinquedo brinca e a criança assiste.

            Isso para não falar das telas, dos gadgets e eletrônicos em geral. Não é de hoje que a sociedade brasileira de pediatria (SBP) vem batendo na tecla da necessidade de regulação do tempo de tela para crianças e adolescentes. Através da campanha #menos tela mais saúde[1], a SBP  vem alertando pais e responsáveis sobre as consequências deletérias da longa exposição das crianças aos eletrônicos. Mas isso não é tudo.

            Como tentativa de apaziguamento do tédio, da necessidade de entretenimento ou, em casos mais agudos, como compensação pelo abandono afetivo, muitas vezes oferecemos às nossas crianças uma solução rápida e fácil. Um brinquedo que brincará com elas ou até mesmo por elas. Não se trata, é claro, de apontar dedos. A vida está cada dia mais corrida e a quantidade de trabalho necessária para dar conta de uma família ou de uma criança torna os pais cada dia mais ocupados. Mas sejamos conscientes. Tenhamos clareza do que estamos fazendo. Se não vamos precipitar julgamentos, tampouco iremos dourar a pílula.

            Quando se trata do desenvolvimento das crianças, nada substitui o brincar – nem mesmo o brinquedo. É ali, no momento da brincadeira, que a criança vai desenvolver sua criatividade e desenvolver capacidades fundamentais para a formação do self, sua identidade e consciência. É na brincadeira que ela aprende  a avaliar cenários, projetar acontecimentos e desenvolver perspectivas. É na brincadeira que ela aprende a se colocar no lugar do outro e a lançar um olhar sobre si mesmo.        

Para tanto, não é necessário grandes inventos ou requintadas mediações. Muito pelo contrário. Basta que uma sucata se transforme em caminhão, ou que um tubo de pasta de dente ganhe o espaço sideral como se fosse um foguete. Abuse daquilo que hoje em dia convencionou-se chamar de brinquedos não estruturados. Dedique um tempo à sua criança, ensine-a brincar longe das brincadeiras já prontas. Permita que ela construa seus próprios mundos ao invés de ficar a reboque de roteiros cada vez mais repetitivos e empobrecidos que a industria cultural vende como se fossem maravilhas, mas que não passam de versões lúdicas de feijões enlatados – padronizados e sem sabor. Com isso você não apenas encorajará sua criança a se aventurar nas maravilhas da experimentação e da perspectiva, como descobrirá, também, pelos olhos dos pequenos as maravilhas que se escondem na palidez acelerada de um cotidiano aparentemente desencantado. Apenas aparentemente!


[1]     Acesse aqui a campanha: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/_22246c-ManOrient_-__MenosTelas__MaisSaude.pdf

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